Profissões do futuro exigem mudanças no processo de educação e reinvenção do mercado


Profissões do futuro

Estamos preparados para as profissões do futuro? Existem vários projetos que treinam as pessoas para ocuparem novos cargos, mas o mercado e a educação ainda precisam trilhar um longo caminho rumo à real mudança estrutural exigida pelo atual contexto da transformação tecnológica.

Datise Biasi, empreendedora em rede e especialista em Futuro do Trabalho, afirma que pouco tem sido feito para mudar o ensino. “Estamos preparando as crianças para entrarem em uma universidade e ocuparem um cargo dentro de uma empresa. Cada vez menos é o que vai acontecer. Não vamos precisar disso para ter uma profissão para se destacar e ter uma função profissional. Aos poucos, a educação básica está dando conteúdos mais modernos, mas não é o bastante”.

Ela concorda que, de fato, há várias instituições com olhar mais visionário rumo às profissões do futuro, mas acredita que ainda há um grande abismo ao comparar a atuação delas com o contexto geral. O que precisa ser feito é pensar em como os profissionais devem se encaixar diante das novas carreiras.

Segundo Mari Achutti, CEO da Sputnik (braço do Grupo Perestroika), o cenário ideal é se atentar para a multicapacitação.  “Ao falar sobre profissões do futuro, uma única pessoa vai ter muitas carreiras e não haverá uma especialização definida. Isso muda tudo, inclusive a forma como temos que nos capacitar. O desafio é conseguir passar conteúdos com uma metodologia diferente”, ela diz.

Segundo ela, é necessário que o ensino esteja alinhado com os valores dos tempos modernos, indo além do que se aprende no âmbito acadêmico. A nova metodologia precisa aplicar também dados do mercado e informações produzidas pelos profissionais do mercado.

Embora exista essa visão alarmante, há instituições que de fato procuram atualizar as grades curriculares adequando-as para as profissões do futuro. É o caso do Senai, por exemplo, que foca em cursos do setor industrial.

Felipe Morgado, gerente de Educação Profissional e Tecnológica do Senai Nacional, explica como a instituição insere os novos cursos à grade de ensino. “Temos 28 observatórios tecnológicos que identificam as tecnologias que serão difundidas nos próximos 10 anos, aplicando os estudos na nossa metodologia. A partir desses estudos e de um mapa industrial, temos um comitê que elabora os currículos, garantindo que a grade tenha competências alinhadas ao cenário desse próximo período”.

Os cursos mais recentes incluídos na programação estão voltados para tendências em alta como big data, internet das coisas e inteligência artificial, bem como o curso de MBA sobre Indústria 4.0 e parcerias com empresas de renome mundial, como a Microsoft.

Afinal, como serão as profissões do futuro?

Estamos vivendo a Quarta Revolução Industrial e esse contexto traz forte impacto no que serão profissões do futuro. O avanço da tecnologia é o fator que mais direciona o caminho para novas atividades do mercado.

Felipe aponta que essa é a primeira fase tecnológica da história em podemos acompanhar os processos de mudança. “Com a Quarta Revolução Industrial, as pessoas estão vivendo os processos de transformação e participando deles. Nas outras revoluções, as pessoas só viam os resultados depois que elas já aconteciam, mas agora temos consciência de que estamos passando por ela. Com isso, as empresas conseguem incorporar as mudanças nos processos de forma gradual”.

O contexto abre portas para que os profissionais também possam se atualizar e se preparar para o que está por vir. Segundo Morgado, há pesquisas que apontam um nível de 50% de automação das atividades até 2065, o que reforça uma forte transformação no mercado de trabalho.

Para Datise, todas as profissões vão ter atividades automatizadas e é necessário separar processos humanos para se adaptar aos novos tempos. “Tudo que é extremamente mecânico e operacional vai ser feito pela tecnologia e automação. Isso não acontece somente em profissões específicas, mas hoje mesmo já existem camadas em qualquer profissão que podem ser feitas por um robô. Precisamos entender o que a gente faz hoje e o que diz respeito às nossas capacidades e habilidades humanas. É isso que vai fazer diferença nas nossas atividades e dar competitividade nas profissões do futuro”.

Vale citar o futurista Alvin Toffler, que traz uma ideia semelhante: “O analfabeto do século XXI não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender”. Mais do que isso, as características pessoais terão bastante impacto nos perfis dos novos trabalhadores.

A teoria também vai de encontro com o que pensa a CEO da Sputnik: “Para mim, os profissionais que mais saem na frente são quem consegue ter autonomia, pensamento cognitivo e skills sociais mais desenvolvidos, como responsabilidade, flexibilidade, capacidade de resolução de problemas e criatividade. São as pessoas menos inflexíveis e mais abertas ao novo, que estão disponíveis a mudar e não ter medo de errar. Precisamos ser capazes de nos relacionar de forma transparente, menos competitiva e trazer valores da nova economia, como a colaboração e o trabalho em equipe”, diz Mari.

Felipe complementa que quem já está inserido nas empresas automatizadas tem vantagem mais vantagem. “Saem na frente os profissionais das empresas que estão incorporando a digitalização e automatizando os processos industriais, porque eles são atualizados de maneira mais constante na profissão.  Em segundo lugar, vêm aqueles que buscam atualizar as competências técnicas e emocionais”.

Como o mercado busca promover a capacitação dos novos profissionais?

Não só as instituições de ensino começaram a trazer novos cursos, mas as organizações também passaram a perceber a necessidade de capacitar funcionários para o futuro. Se os profissionais do presente foram educados para um cenário que logo deixará de existir, faz sentido que as próprias empresas busquem readequá-los para as novas tarefas.

“Muitos de nós fomos educados para uma economia que não existe mais. As organizações estão vendo a oportunidade de capacitar esses profissionais e investindo neles. É um momento de começar a desenvolver academias externas e promover uma cultura entre os funcionários”, afirma Achutti. “Precisamos inserir os valores da nova economia, que são digitais e tecnológicos. Eles só vão aparecer se houver mudança e choque de cultura nas organizações”.

De acordo com Mari, há pesquisas apontando que o Brasil investe cerca de R$ 700,00 em capacitação por profissional, o que ainda é baixo em comparação com os Estados Unidos — R$ 1500,00.

Esses números podem ser interpretados pelas dificuldades do mercado, como aponta Morgado. “Diante do alto índice de desempregados, as dificuldades para a recolocação não estão nas pessoas, mas sim nas empresas, que precisam digitalizar os processos. Elas devem buscar uma requalificação dos profissionais e incorporação de novas tecnologias. Enquanto isso, as pessoas estão buscando as instituições de ensino para se requalificarem. Se fizermos a lição de casa agora, as empresas não terão dificuldade para encontrar as pessoas certas para as novas funções”.

Mari reforça que hoje surgem muitos cursos e eventos no mercado para promover a atualização dos trabalhadores, como uma resposta à necessidade de aprendizados além do que se ensina nas escolas. “Há vários cursos online gratuitos, festivais e escolas ensinando alto e baixo custo sobre mindsets. As organizações precisam investir em profissionais e trazer para dentro da empresa. Elas têm uma característica social para fazer os profissionais se desenvolverem”.

Embora concorde com a função das empresas, Datise enxerga que a verdadeira iniciativa em busca das profissões do futuro deve vir dos próprios trabalhadores: “Acho que nós temos que ser responsáveis por essa preparação e assumir o protagonismo de onde queremos chegar. Ninguém tem as respostas certas, muito menos as organizações. Em são Paulo, podemos participar de eventos gratuitos em coworkings e centros de empreendedorismo, como o Google Campus, o Inovabra e o Cubo, além de meetups. Não falta oportunidade de ir atrás do conhecimento. Essa é a principal estratégia para ser protagonista dessa busca por habilidades que vão nos preparar para o futuro”.

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  1. Profissoes do futuro exigem mudancas no processo de educacao e reinvencao do mercado – Techolics. Embora haja iniciativas que treinam as pessoas para as profissoes do futuro, ainda e necessaria uma maior mudanca estrutural na sociedade.

Profissões do futuro exigem mudanças no processo de educação e reinvenção do mercado

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